9 de agosto de 2017

SALÓ - OS 120 DIAS DE SODOMA


O belo, sensível e competentíssimo Pier Paolo Pasolini, na minha opinião um dos maiores cineastas de todos os tempos, teve um olhar bem lúcido sobre a obra do pensador aristocrata Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês.

Quando se fala em Marquês de Sade, normalmente as pessoas fazem uma ligação imediata com o sexo. Infelizmente, há quem o tenha lido e sequer percebido que o que ele quis nos mostrar são as verdadeiras sujeiras humanas: a maldade, a opressão, a injustiça, o preconceito, mazelas que o animal humano vive e em seguida varre pra debaixo do tapete. 


Quando "Saló - Os 120 Dias de Sodoma" esteve nos circuitos de cinema em BH eu quis muito assistir, mas estava grávida e meus amigos me impediram sob a alegação de que não seria benéfico para o bebê. Pronto, falou que alguma coisa poderia prejudicar meu bebê e eu logo desisti da ideia. Levianamente, neste caso, porque jamais lera um dos textos de Sade e não sabia do que se tratava. Mas, estava escrito que um dia eu assistiria o filme e isto aconteceu quando, há cinco anos, ganhei de uma amiga uma cópia e guardei para saborear num momento oportuno. 


O filme foi inspirado no livro "Os 120 Dias de Sodoma", de Sade, e conta a história de um grupo de jovens que sofre uma série de torturas feitas por quatro altos dignitários fascistas: Um Duque representando a nobreza, um Bispo como a igreja, um Chefe de Estado personificando o poder político e um Magistrado como a corrupção e a parcialidade da justiça.

Saló, uma comunidade italiana da região da Lombardia, província de Bréscia, foi o cenário escolhido.
Fundada no período romano como Pagus Salodium, na Idade Média tornou-se parte dos domínios da família milanesa Visconti e, a partir de 1440, ficou sob controlo da República de Veneza.
Entre 1943 e 1945 Saló foi a capital do estado-fantoche de Mussolini apoiado pelos nazistas, a dita República Social Italiana, também conhecida como República de Saló. 

Além dos dezesseis exemplares perfeitos de jovens, os fascistas levam junto guardas e agentes para um palácio perto de Marzabotto. Levam também quatro mulheres de meia-idade: três delas cantam histórias enquanto a quarta as acompanha ao piano. As músicas são em grande parte baseadas nas histórias de Dante e Sade dividindo o filme em três ciclos: O Ciclo das Manias, o Ciclo da Merda e o Ciclo do Sangue.



Os Senhores coordenam a operação de recolha das vítimas; jovens de ambos os sexos na flor da idade, que serão levados para a mansão onde acontecerão as orgias.
Os ciclos da vida, e do sexo associado à alegria, são expressamente rejeitados por Pasolini, que assim compõe um filme em ruptura com ele próprio. Um filme sobre ciclos também, mas desta feita sobre ciclos de morte. 

Transpondo "Os 120 Dias de Sodoma" para os últimos dias da ditadura fascista italiana, "Saló" não podia deixar de ser um filme violento, atroz, repulsivo. Porque é do que trata Pasolini em sua obra final: o fascismo. Violento, atroz e repulsivo, o sexo é agora um castigo; uma introdução às torturas finais, de que são merecedores todos aqueles que mereceram uma referência no livrinho de apontamentos dos detentores do poder. 

O fascismo é explorado em todas as vertentes possíveis. O espaço fechado da mansão, a lei escrita - e reescrita - a bel-prazer pelos Senhores, o domínio absoluto sobre o "povo", a exigência total da conformidade dos comportamentos aos desejos dos dominadores, a censura, a denúncia e o colaboracionismo. Quanto à censura, não deixa de ser curioso - e por outro lado, algo óbvio - que a forma com que Pasolini fez revestir o filme tenha despertado tais ódios e perseguições, de pessoas que quiseram proibir exibições e até destruir negativos. Ainda hoje "Saló" é proibido em alguns países. 

Um dos terrores é a nossa incapacidade de resistência à opressão e ao terror do domínio total do regime, que nos leva a ceder e a tornar-nos parte. A fuga ao pesadelo passa pela denúncia do vizinho, que é reconhecida e estimulada pelos Senhores. A sequência das denúncias no filme leva o espectador ao riso, e, no entanto, será das sequências menos caricaturais. É a partir daqui que se escolhem os eleitos, aqueles que serão levados para "Saló". Os que olharam o abismo e a quem o abismo devolveu o olhar. 

No fundo, as atrozes orgias, poderiam não passar de um concurso, cujo prêmio são "umas férias de sonho", algures, ligeiramente mais atroz daqueles que o regime nos oferece, mas em que ainda podemos rejeitar a participação. Simplesmente, as humilhações que se sofrem e as coisas que se comem, não são a troco da sobrevivência, mas de 15 ou 20 contos e de um reconhecimento público. 

Um dos filmes mais chocantes da história do cinema, esta característica cinematográfica foi feita aos poderes dominantes da Itália em uma catarse explícita e incômoda que vai muito além do campo das idéias, o impacto também é sentido no estômago. Realizado em 1975, por um agressivo Pier Paolo Passolini, Saló faz alegoria com a e história de vários jovens que sofrem o diabo nas mãos do poder. 


A partir de pesquisas em:

Adoro Cinema

Wikipédia



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Um comentário:

  1. Um tema super interessante mas difícil de comentar. É muito especifica a Sodomia, o BDSM, e todas as vertentes sexuais que podem de alguma forma interligadas

    Fiz-me seguidor e linkei o seu blogue no Delirios

    Deixo cumprimentos e o meu agradecimento pela sua visita,

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